Espondilolistese: sintomas, causas e tratamento

Há pessoas que sentem dor nas costas sempre que estão muito tempo de pé, e outras que notam as pernas pesadas a meio de uma caminhada, ao ponto de precisarem de se sentar. Por vezes, a explicação é a espondilolistese, ou seja, o deslizamento de uma vértebra sobre a vértebra de baixo. Neste artigo explicamos o que é, porque acontece, que sintomas pode dar e como se trata.
O que é a espondilolistese
A coluna é formada por vértebras empilhadas umas sobre as outras, unidas por discos e por pequenas articulações. Na espondilolistese, uma vértebra escorrega para a frente em relação à que está por baixo. Acontece sobretudo na parte de baixo das costas, entre a quarta e a quinta vértebras lombares ou entre a quinta vértebra lombar e o sacro.
O deslizamento é classificado em graus, de acordo com a percentagem que a vértebra avançou. A maioria dos casos é de grau baixo.
Os dois tipos mais frequentes são:
- espondilolistese degenerativa: surge em adultos, sobretudo depois dos 50 anos, quando o desgaste dos discos e das articulações deixa a coluna menos estável;
- espondilolistese ístmica: resulta de uma pequena fratura por esforço numa zona da vértebra chamada istmo (a espondilólise). Costuma começar na infância ou na adolescência e pode só dar sintomas na idade adulta.
Há ainda formas menos comuns: congénitas, por traumatismo, por doença do osso ou depois de uma cirurgia à coluna.
Causas e fatores de risco
- idade, pelo desgaste natural das articulações da coluna;
- sexo feminino, na forma degenerativa;
- desportos com extensão repetida das costas na adolescência, como ginástica, dança, halterofilia ou alguns gestos do futebol e do ténis;
- casos na família;
- excesso de peso;
- cirurgia anterior à coluna lombar.
Sintomas
Muitas pessoas com espondilolistese não têm qualquer queixa. Quando há sintomas, os mais comuns são:
- dor lombar que piora ao estar de pé ou ao arquear as costas para trás e alivia ao sentar;
- rigidez e sensação de cansaço nas costas;
- dor que desce pela nádega e pela perna (ciática), com formigueiro ou dormência;
- dor, peso ou fraqueza nas pernas ao andar, que obriga a parar e alivia ao sentar ou ao inclinar o tronco para a frente, por exemplo apoiado no carrinho das compras;
- nos jovens, músculos da parte de trás das coxas muito tensos.
Este último padrão, nas pernas, acontece porque o deslizamento pode estreitar o canal por onde passam os nervos, um quadro semelhante à estenose do canal lombar.
Sinais de alerta
Procure de imediato uma urgência se tiver perda de controlo da urina ou das fezes, dormência na zona genital ou na parte interna das coxas, ou perda de força nas pernas que está a piorar.
Como se faz o diagnóstico
Na consulta, o ortopedista ouve a história, observa a coluna e faz um exame neurológico às pernas.
O primeiro exame é habitualmente a radiografia da coluna lombar em pé. As radiografias em flexão e extensão (dobrado para a frente e para trás) mostram se a vértebra se move mais do que devia, o que ajuda a perceber se há instabilidade.
A ressonância magnética mostra os nervos e o espaço à volta deles e é pedida quando há dor nas pernas ou se pondera cirurgia. A tomografia computorizada (TAC) é útil para ver o osso com detalhe, por exemplo a fratura do istmo.
Tratamento da espondilolistese
Tratamento conservador
A maioria das pessoas começa por tratamento sem cirurgia, que pode incluir:
- ajustar as atividades que provocam dor, sem deixar de se mexer;
- fisioterapia e exercício, com fortalecimento dos músculos do tronco e das ancas;
- medicação para a dor e a inflamação, receitada pelo médico;
- infiltrações junto aos nervos, em casos selecionados, para aliviar a dor nas pernas;
- nos jovens com espondilólise recente, pausa do desporto e, por vezes, um colete durante algum tempo.
Em muitos casos, estas medidas permitem controlar os sintomas durante longos períodos.
Quando se considera cirurgia
A cirurgia pode ser ponderada quando:
- a dor nas costas ou nas pernas continua incapacitante apesar de um tratamento conservador bem feito durante vários meses;
- há perda de força ou alterações neurológicas que estão a piorar;
- a distância que consegue andar fica muito limitada;
- o deslizamento está a aumentar.
As técnicas mais usadas são a descompressão, que alarga o espaço dos nervos, e a artrodese, que fixa as vértebras com parafusos e barras para que o osso consolide e deixe de haver movimento anómalo. Nem sempre é preciso juntar as duas: na espondilolistese degenerativa, estudos recentes indicam que, em muitas pessoas, a descompressão isolada pode ser suficiente, e a decisão de associar a artrodese é tomada caso a caso. Em casos selecionados, existem técnicas menos invasivas, com incisões mais pequenas. A escolha depende do tipo de espondilolistese, da estabilidade e das queixas de cada pessoa.
Habitualmente, a pessoa levanta-se e começa a andar logo no dia da cirurgia ou no dia seguinte. O regresso a um trabalho sem esforço físico faz-se habitualmente entre 4 e 8 semanas, e a consolidação completa da artrodese pode levar 6 a 12 meses. Varia de pessoa para pessoa.
No dia a dia
- Mantenha-se ativo: andar a pé, bicicleta estática ou exercício na água são muitas vezes bem tolerados.
- Fortaleça os músculos do tronco com orientação profissional.
- Evite ficar muito tempo de pé parado; quando precisar, alterne a posição.
- Mantenha um peso saudável.
Perguntas frequentes
A espondilolistese tem cura?
A vértebra habitualmente não volta ao sítio sozinha, mas muitas pessoas vivem sem queixas ou com queixas bem controladas. Quando os sintomas são importantes, há tratamentos, com e sem cirurgia, que podem ajudar.
A espondilolistese pode piorar?
Na maioria dos adultos, o deslizamento mantém-se estável ou progride muito lentamente. A vigilância é decidida caso a caso, sobretudo em jovens ainda em crescimento.
Posso ir ao ginásio ou fazer desporto?
Em geral, sim, e o exercício orientado faz parte do tratamento. Pode ser necessário adaptar alguns exercícios, sobretudo os que arqueiam as costas para trás ou envolvem cargas pesadas.
Quando é preciso operar?
Quando a dor ou as alterações nos nervos não melhoram com o tratamento conservador e afetam muito a qualidade de vida. A decisão é tomada em consulta, depois de explicados os benefícios e os riscos.
Quando marcar consulta
Marque uma consulta se tiver dor lombar que dura há várias semanas, se a dor descer para as pernas, ou se precisar de parar com frequência quando anda por causa de dor ou peso nas pernas. Saiba também mais sobre a estenose do canal lombar, que muitas vezes acompanha a espondilolistese. Perante os sinais de alerta descritos acima, dirija-se a uma urgência.
Para perceber se a espondilolistese explica as suas queixas e que opções fazem sentido no seu caso, pode marcar consulta com a equipa do Dr. Miguel Carvalho nos Hospitais Lusíadas Amadora, Beloura e Campera.
Este artigo é informativo e não substitui uma consulta médica.
Referências
- Espondilolistese do desenvolvimento. Revista Portuguesa de Ortopedia e Traumatologia (SPOT), 2012.
- Adult Spondylolisthesis in the Low Back. AAOS OrthoInfo (American Academy of Orthopaedic Surgeons), s.d. (consultado em 2026).
- Spondylolysis and Spondylolisthesis. AAOS OrthoInfo (American Academy of Orthopaedic Surgeons), s.d. (consultado em 2026).
- Spondylolisthesis. NHS (Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido), 2026.
- Decompression alone versus decompression with instrumented fusion in the treatment of lumbar degenerative spondylolisthesis: a systematic review and meta-analysis of randomised trials. Journal of Neurology, Neurosurgery and Psychiatry (Kaiser R et al.), 2023.
