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Conflito femoro-acetabular: sintomas e tratamento

Homem de cerca de 40 anos faz um exercício para a anca com elástico, orientado por uma fisioterapeuta

Uma dor na virilha que aparece ao fim de muito tempo sentado, ao entrar no carro ou depois de um jogo de futebol ou de padel, e que demora a passar, é uma queixa comum em adultos ativos. Uma das causas possíveis é o conflito femoro-acetabular, uma alteração da forma da anca que faz com que os ossos choquem em certos movimentos. Neste artigo explicamos o que é, como se reconhece, como se confirma e que tratamentos existem.

O que é o conflito femoro-acetabular

A anca é formada pela cabeça do fémur, em forma de bola, que encaixa numa cavidade da bacia, o acetábulo. À volta do rebordo do acetábulo existe o lábio, uma espécie de anel de cartilagem que ajuda a vedar e a estabilizar a articulação.

No conflito femoro-acetabular, a forma destes ossos não é a habitual, e em certos movimentos, sobretudo quando se dobra e roda a anca, o fémur toca no rebordo do acetábulo. Há dois tipos principais, que muitas vezes coexistem:

  • tipo cam: existe uma saliência de osso na junção entre a cabeça e o colo do fémur;
  • tipo pincer: o acetábulo cobre a cabeça do fémur mais do que o habitual.

Com o tempo, este contacto repetido pode lesar o lábio e a cartilagem. É importante saber que muitas pessoas têm esta forma de anca sem nunca terem queixas. Fala-se de síndrome de conflito femoro-acetabular quando a forma do osso se junta a sintomas e a alterações no exame médico.

Causas e fatores de risco

  • desporto intenso durante a adolescência, numa fase em que o osso ainda está a crescer, sobretudo futebol, hóquei, basquetebol, dança ou artes marciais;
  • fatores genéticos e casos na família;
  • algumas doenças da anca na infância;
  • o tipo cam é mais frequente em homens e o tipo pincer em mulheres;
  • atividades que exigem muita flexão e rotação da anca.

Sintomas

  • dor na virilha ou na parte da frente da anca, por vezes na parte de lado; muitas pessoas descrevem a dor colocando a mão em forma de «C» à volta da anca;
  • dor ao estar muito tempo sentado, sobretudo em cadeiras baixas;
  • dor ao entrar e sair do carro, ao agachar, ao calçar sapatos ou ao cruzar as pernas;
  • dor durante ou depois do desporto, sobretudo com mudanças de direção;
  • estalidos, sensação de bloqueio ou de prisão na anca;
  • rigidez e perda de mobilidade, sobretudo na rotação para dentro.

Sinais de alerta

O conflito femoro-acetabular não costuma exigir urgência. Procure uma urgência se tiver dor súbita e intensa com incapacidade de apoiar a perna, sobretudo após uma queda, ou dor na anca acompanhada de febre.

Como se faz o diagnóstico

Na consulta, o ortopedista ouve a história e faz testes que reproduzem a dor, por exemplo dobrar e rodar a anca para dentro. Avalia também a coluna e os músculos à volta da anca, porque há outras causas de dor nesta região, como problemas musculares ou hérnias da parede abdominal.

As radiografias da bacia, com incidências específicas, mostram a forma do fémur e do acetábulo e o estado da articulação. A ressonância magnética, por vezes com contraste dentro da articulação (artro-ressonância), avalia o lábio e a cartilagem. A TAC pode ser útil para planear uma cirurgia. Em alguns casos, uma infiltração com anestésico ajuda a confirmar se a dor vem de dentro da articulação.

Tratamento do conflito femoro-acetabular

Tratamento conservador

O tratamento começa habitualmente sem cirurgia:

  • adaptar as atividades que provocam dor, por exemplo evitar agachamentos profundos e cadeiras muito baixas;
  • fisioterapia, com fortalecimento dos músculos da anca e do tronco e trabalho de controlo do movimento, durante pelo menos alguns meses;
  • medicação para a dor e a inflamação, durante períodos curtos e receitada pelo médico;
  • infiltração na articulação, em casos selecionados.

Muitas pessoas melhoram o suficiente para manter as suas atividades com estas medidas.

Quando se considera cirurgia

A cirurgia pode ser ponderada quando a dor persiste e limita o dia a dia ou o desporto, apesar de um tratamento conservador bem feito. Estudos recentes mostram que, em pessoas bem selecionadas, a cirurgia pode melhorar os sintomas, mas a fisioterapia continua a ser uma opção válida, e a decisão é tomada caso a caso.

A técnica mais usada é a artroscopia da anca: através de pequenas incisões e com uma câmara, o cirurgião remove a saliência de osso, corrige o rebordo do acetábulo quando é necessário e repara ou trata o lábio. Em situações mais complexas pode ser necessária cirurgia aberta.

A cirurgia de preservação da anca é menos indicada quando já existe artrose avançada. Nesses casos, outras opções, como a prótese, podem fazer mais sentido.

Depois de uma artroscopia, as canadianas são usadas habitualmente durante algumas semanas, e até 1 a 2 meses quando a cirurgia é mais extensa. A fisioterapia continua durante vários meses, e o regresso ao desporto faz-se de forma gradual, habitualmente ao fim de vários meses. Varia de pessoa para pessoa.

No dia a dia

  • Prefira cadeiras mais altas e evite ficar muito tempo sentado com as ancas muito dobradas.
  • Faça os exercícios de fortalecimento com regularidade, mesmo quando a dor melhora.
  • No desporto, aqueça bem e adapte os gestos que provocam dor.

Perguntas frequentes

O conflito femoro-acetabular causa artrose?

Pode aumentar o risco de artrose da anca em algumas pessoas, mas nem todas a desenvolvem. A relação ainda está a ser estudada, e não se recomenda operar uma anca sem sintomas para prevenir a artrose.

Posso continuar a fazer desporto?

Em muitos casos, sim, adaptando a intensidade e alguns gestos. O fisioterapeuta e o médico ajudam a perceber quais os movimentos a evitar e como regressar com segurança.

A artroscopia da anca é sempre necessária?

Não. Muitas pessoas melhoram com tratamento conservador. A artroscopia é considerada quando as queixas persistem e o exame e os exames de imagem mostram uma causa que a cirurgia pode corrigir.

Quanto tempo demora a recuperação depois da artroscopia?

O regresso a um trabalho de escritório faz-se habitualmente ao fim de algumas semanas, e o regresso ao desporto ao fim de vários meses, com fisioterapia. Depende da cirurgia feita e de cada pessoa.

Quando marcar consulta

Marque uma consulta se tiver dor na virilha ou na anca que dura há várias semanas, que piora ao sentar ou no desporto, ou se sentir estalidos e bloqueios. Se já tem mais de 50 anos e a dor é constante, pode tratar-se de coxartrose, que tem um tratamento diferente.

Para perceber a causa da sua dor na anca e as opções no seu caso, pode marcar consulta com a equipa do Dr. Miguel Carvalho nos Hospitais Lusíadas Amadora, Beloura e Campera.

Este artigo é informativo e não substitui uma consulta médica.

Referências

  1. The Warwick Agreement on femoroacetabular impingement syndrome (FAI syndrome): an international consensus statement. British Journal of Sports Medicine (Griffin DR et al.), 2016.
  2. Hip arthroscopy versus best conservative care for the treatment of femoroacetabular impingement syndrome (UK FASHIoN): a multicentre randomised controlled trial. The Lancet (Griffin DR et al.), 2018.
  3. Keyhole surgery may be better than physiotherapy for hip impingement. NIHR Evidence (National Institute for Health and Care Research), 2019.
  4. Femoroacetabular Impingement. AAOS OrthoInfo (American Academy of Orthopaedic Surgeons), s.d. (consultado em 2026).
  5. Hip Arthroscopy. AAOS OrthoInfo (American Academy of Orthopaedic Surgeons), s.d. (consultado em 2026).

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