Fratura do colo do fémur no idoso: tratamento e recuperação

Uma queda em casa, ao levantar-se de noite ou ao tropeçar num tapete, e de repente a pessoa não consegue pôr-se de pé, com uma dor forte na anca. Em pessoas mais velhas, esta situação é muitas vezes uma fratura do colo do fémur. É uma lesão séria, mas que tem tratamento. Neste artigo explicamos o que fazer no momento, porque se opera cedo, que cirurgias existem, como é a recuperação e como prevenir uma nova fratura.
O que é a fratura do colo do fémur
O fémur é o osso da coxa. Na parte de cima, tem uma cabeça em forma de bola, que encaixa na bacia, ligada ao resto do osso por uma zona mais estreita, o colo do fémur. Logo abaixo fica a região trocantérica.
As fraturas nesta zona chamam-se, em conjunto, fraturas da anca ou fraturas proximais do fémur. Distinguem-se dois grandes grupos, que se tratam de forma diferente:
- fraturas do colo do fémur, dentro da cápsula da articulação;
- fraturas trocantéricas, um pouco mais abaixo, fora da articulação.
Nas pessoas mais velhas, a maioria acontece depois de uma queda simples, da própria altura, porque o osso está fragilizado pela osteoporose.
Causas e fatores de risco
- idade avançada;
- osteoporose;
- sexo feminino;
- quedas, favorecidas por falta de equilíbrio, fraqueza muscular, má visão ou calçado inadequado;
- medicamentos que causam sonolência, tonturas ou quebras de tensão;
- obstáculos em casa, como tapetes soltos, fios e pouca luz;
- fratura anterior por fragilidade;
- baixo peso, tabagismo e consumo excessivo de álcool;
- demência e outras doenças que afetam o equilíbrio.
Sintomas
- dor intensa na virilha ou na anca depois de uma queda;
- incapacidade de se levantar ou de apoiar o peso na perna;
- perna afetada mais curta e rodada para fora;
- nódoa negra e inchaço na zona da anca, por vezes nos dias seguintes.
Em algumas fraturas, em que o osso fica encaixado, a pessoa ainda consegue andar com dor. Por isso, dor persistente na anca depois de uma queda deve ser sempre avaliada.
Sinais de alerta: o que fazer
- Não tente levantar a pessoa à força.
- Ligue 112.
- Mantenha a pessoa confortável e agasalhada até à chegada do socorro.
Como se faz o diagnóstico
O diagnóstico é feito no serviço de urgência. O médico observa a anca e pede uma radiografia da bacia e da anca, que na maioria dos casos mostra a fratura.
Quando a radiografia não mostra fratura, mas a suspeita se mantém, pode ser pedida uma ressonância magnética ou uma TAC.
Ao mesmo tempo, avalia-se a saúde geral: análises, eletrocardiograma, medicação habitual (sobretudo anticoagulantes) e outras doenças, para preparar a cirurgia com segurança.
Tratamento da fratura do colo do fémur
Porque se opera cedo
Na grande maioria das pessoas, o tratamento é cirúrgico, e as diretrizes recomendam que a cirurgia seja feita no dia da admissão ou no dia seguinte, assim que a pessoa esteja estável. Operar cedo permite levantar e andar mais depressa, e ajuda a reduzir complicações de ficar acamado, como infeções respiratórias, feridas de pressão e tromboses. Em Portugal, a percentagem de fraturas da anca operadas nas primeiras 48 horas é um dos indicadores usados para avaliar a qualidade dos hospitais do SNS.
O tratamento sem cirurgia é raro e reservado a situações muito particulares, decididas com a família e a equipa.
Que cirurgias existem
A técnica depende do tipo de fratura, da idade biológica, da autonomia antes da queda e da saúde geral:
- fixação interna com parafusos, nas fraturas do colo sem desvio, que mantém a anca da própria pessoa;
- hemiartroplastia, que substitui apenas a cabeça do fémur por uma prótese, em fraturas com desvio;
- prótese total da anca, que substitui também a cavidade da bacia, considerada em pessoas que andavam de forma autónoma antes da queda e têm boa saúde geral;
- cavilha ou placa com parafuso, nas fraturas trocantéricas.
Recuperação
O objetivo é levantar a pessoa logo no dia seguinte à cirurgia, com a ajuda do fisioterapeuta. Na maioria dos casos é permitido apoiar a perna desde o início, com andarilho ou canadianas.
A recuperação envolve uma equipa: ortopedista, médico de medicina interna ou de geriatria, enfermagem, fisioterapia, terapia ocupacional e apoio social. O internamento dura habitualmente de alguns dias a algumas semanas. Depois da alta, a reabilitação continua em casa ou numa unidade de reabilitação, durante várias semanas a meses.
Muitas pessoas recuperam grande parte da autonomia que tinham, mas algumas passam a precisar de mais apoio, sobretudo quem já tinha dificuldades antes da queda. O ritmo varia muito de pessoa para pessoa.
Depois da fratura: proteger os ossos
Uma fratura da anca é sinal de ossos frágeis. Antes da alta ou na consulta seguinte, deve ser avaliado o tratamento da osteoporose e o risco de novas quedas.
Prevenção no dia a dia
- Retire tapetes soltos e fios do chão e garanta boa iluminação, incluindo de noite.
- Instale barras de apoio na casa de banho e use base antiderrapante no duche.
- Use calçado fechado e com sola antiderrapante, também dentro de casa.
- Faça exercício de equilíbrio e de força, por exemplo programas de prevenção de quedas ou tai chi.
- Peça ao médico para rever os medicamentos e vigie a visão.
- Trate a osteoporose, se lhe tiver sido diagnosticada.
Perguntas frequentes
É sempre preciso operar uma fratura do colo do fémur?
Quase sempre. A cirurgia é, na maioria dos casos, a forma mais segura de aliviar a dor e permitir que a pessoa volte a andar. A decisão é sempre discutida com o doente e a família.
Quando pode voltar a andar?
Habitualmente, a pessoa dá os primeiros passos com ajuda no dia seguinte à cirurgia. A marcha vai melhorando ao longo de semanas a meses, com fisioterapia.
Quanto tempo demora a recuperação?
A recuperação mais significativa acontece nos primeiros 3 a 6 meses, mas pode continuar durante um ano. Depende da autonomia antes da queda, da saúde geral e da reabilitação.
Pode voltar a acontecer?
O risco de nova fratura existe, na mesma anca ou na outra, e também na coluna. Tratar a osteoporose e prevenir quedas reduz esse risco. Saiba mais sobre a fratura vertebral por osteoporose.
Quando marcar consulta
Perante uma queda com dor na anca e incapacidade de andar, ligue 112 ou dirija-se a uma urgência. Marque uma consulta de ortopedia para o acompanhamento depois da cirurgia, se continuar com dor na anca semanas após uma queda, ou se tem osteoporose ou quedas frequentes e quer avaliar o risco de fratura.
Para o acompanhamento da fratura ou para avaliar o risco no seu caso, pode marcar consulta com a equipa do Dr. Miguel Carvalho nos Hospitais Lusíadas Amadora, Beloura e Campera.
Este artigo é informativo e não substitui uma consulta médica.
Referências
- Hip fracture: management (CG124). NICE (National Institute for Health and Care Excellence), 2011, atualizada em 2023.
- Fraturas da Anca (Cirurgias nas primeiras 48h). ACSS (Administração Central do Sistema de Saúde), dados.gov.pt, 2023.
- Artroplastia Total da Anca (Norma n.º 014/2013). Direção-Geral da Saúde (DGS) e Ordem dos Médicos, 2013.
- Broken hip. NHS (Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido), 2026.
- Hip Fractures. AAOS OrthoInfo (American Academy of Orthopaedic Surgeons), s.d. (consultado em 2026).
