Rotura da coifa dos rotadores: sintomas e tratamento

Pentear-se, vestir um casaco ou chegar a uma prateleira alta começa a doer, e à noite a dor no ombro acorda-o sempre que se vira para esse lado. São queixas muito comuns depois dos 50 anos e uma das causas frequentes é a rotura da coifa dos rotadores. Neste artigo explicamos o que é a coifa, porque se rompe, como se faz o diagnóstico e quando se opta por fisioterapia, infiltrações ou cirurgia.
O que é a rotura da coifa dos rotadores
A coifa dos rotadores é um conjunto de quatro músculos e respetivos tendões que envolvem a cabeça do úmero, o osso do braço. Mantêm a cabeça do úmero centrada na articulação e permitem levantar e rodar o braço.
Uma rotura pode ser parcial, quando o tendão está danificado mas não totalmente cortado, ou completa, quando há um orifício ou um descolamento do tendão em relação ao osso. Há dois grandes tipos:
- rotura degenerativa: é a mais frequente. Resulta do desgaste progressivo do tendão com a idade. Muitas pessoas têm roturas destas sem qualquer dor;
- rotura traumática: acontece de forma súbita, por exemplo numa queda sobre o braço, numa luxação do ombro ou ao tentar segurar um peso que cai.
Causas e fatores de risco
- idade, sobretudo a partir dos 50 a 60 anos;
- trabalhos ou desportos com os braços frequentemente acima da cabeça, como pintura, construção, natação, ténis ou padel;
- tabagismo, que prejudica a irrigação dos tendões;
- quedas e luxações do ombro;
- casos na família;
- alterações da forma do osso por cima do ombro, que podem contribuir para o desgaste.
Sintomas
- dor na parte de cima e de lado do ombro, que pode descer pelo braço até perto do cotovelo;
- dor ao levantar o braço, ao vestir-se, pentear-se ou chegar a sítios altos;
- dor noturna, sobretudo ao deitar sobre o ombro afetado;
- fraqueza ao levantar ou rodar o braço;
- estalidos ou sensação de atrito;
- depois de um traumatismo, incapacidade súbita de levantar o braço.
Sinais de alerta
- Se, depois de uma queda, o ombro ficar deformado ou não conseguir mexer o braço, dirija-se a uma urgência.
- Se ficar sem conseguir levantar o braço após um traumatismo, mesmo sem deformidade, marque uma avaliação rápida, porque as roturas traumáticas podem beneficiar de tratamento precoce.
- Dor no ombro ou no braço esquerdo acompanhada de aperto no peito, falta de ar ou suores pode ter origem no coração: ligue 112.
Como se faz o diagnóstico
Na consulta, o ortopedista avalia a mobilidade do ombro, a força de cada tendão e faz testes específicos. Observa também o pescoço, porque problemas da coluna cervical podem dar dor parecida.
Nem toda a dor no ombro é uma rotura. A inflamação dos tendões (tendinopatia) e da bolsa que os protege (bursite) é muito frequente e dá queixas parecidas.
A radiografia mostra o osso e sinais de desgaste. A ecografia e a ressonância magnética mostram os tendões, o tamanho da rotura e o estado dos músculos, o que é importante para decidir o tratamento. Como muitas pessoas têm roturas sem dor, o resultado do exame é sempre interpretado em conjunto com as queixas e a observação.
Tratamento da rotura da coifa dos rotadores
Tratamento conservador
Nas roturas degenerativas, o tratamento começa habitualmente sem cirurgia:
- fisioterapia e exercícios para recuperar a mobilidade e fortalecer os músculos à volta do ombro. Muitas pessoas melhoram a dor e a função mesmo com o tendão roto;
- adaptação das atividades, evitando durante algum tempo os gestos que provocam dor;
- medicação para a dor e a inflamação, receitada pelo médico;
- infiltração de corticoide, que pode aliviar a dor durante algumas semanas e facilitar a fisioterapia. Não se recomenda repetir muitas vezes.
Quando se considera cirurgia
A cirurgia pode ser ponderada:
- numa rotura traumática recente, sobretudo em pessoas ativas, idealmente nas primeiras semanas;
- quando a dor e a fraqueza persistem apesar de um tratamento conservador bem feito durante alguns meses;
- quando a rotura está a aumentar ou o músculo começa a perder qualidade.
A técnica mais usada é a reparação artroscópica: com uma câmara e pequenas incisões, o tendão é fixado de novo ao osso com âncoras e suturas. Quando a rotura é muito grande e não pode ser reparada, existem outras opções, como transferências de tendões ou, se já houver artrose, uma prótese invertida do ombro. A escolha é feita caso a caso.
Depois de uma reparação, o braço fica habitualmente num suspensório durante 4 a 6 semanas. A fisioterapia continua durante vários meses: a recuperação do movimento e da força leva habitualmente 4 a 6 meses, e a recuperação completa pode demorar mais. Varia de pessoa para pessoa.
No dia a dia
- Mantenha o ombro em movimento dentro do que a dor permite.
- Faça com regularidade os exercícios de fortalecimento recomendados.
- Aproxime-se dos objetos em vez de esticar muito o braço, e use um banco estável para chegar a sítios altos.
- Se fuma, deixar de fumar ajuda a saúde dos tendões e a cicatrização.
Perguntas frequentes
A rotura da coifa dos rotadores cicatriza sozinha?
Uma rotura completa habitualmente não volta a colar ao osso sozinha. Mas a dor e a função podem melhorar muito com fisioterapia, e muitas pessoas não chegam a precisar de cirurgia.
É sempre preciso operar?
Não. A decisão depende do tipo de rotura, da idade, das atividades e da resposta ao tratamento conservador. É tomada em consulta.
Posso conduzir com o braço no suspensório?
Não é recomendado. Habitualmente, a condução só é retomada depois de retirar o suspensório e quando consegue controlar o volante com segurança. Confirme sempre com o médico.
As infiltrações estragam o tendão?
Uma infiltração ocasional é considerada segura e pode ajudar. Infiltrações de corticoide repetidas muitas vezes podem enfraquecer o tendão e dificultar uma eventual reparação, por isso o número é limitado, habitualmente a não mais de duas, e decidido pelo médico.
Quando marcar consulta
Marque uma consulta se tiver dor no ombro há mais de algumas semanas, dor que o acorda à noite, fraqueza ao levantar o braço, ou se deixou de conseguir levantar o braço depois de uma queda. Se a dor vier acompanhada de formigueiro nos dedos, a causa pode estar noutro local, como o pescoço ou o punho (por exemplo a síndrome do túnel cárpico).
Para perceber a origem da dor no ombro e as opções adequadas ao seu caso, pode marcar consulta com a equipa do Dr. Miguel Carvalho nos Hospitais Lusíadas Amadora, Beloura e Campera.
Este artigo é informativo e não substitui uma consulta médica.
Referências
- Ombro e Cotovelo (Literacia em Saúde). Sociedade Portuguesa de Ortopedia e Traumatologia (SPOT), s.d. (consultado em 2026).
- Management of Rotator Cuff Injuries: Evidence-Based Clinical Practice Guideline. American Academy of Orthopaedic Surgeons (AAOS), 2025.
- Surgery for rotator cuff tears. Cochrane Database of Systematic Reviews (Karjalainen TV et al.), 2019.
- Subacromial shoulder pain (BESS/BOA patient care pathway). Shoulder & Elbow, British Elbow & Shoulder Society (Kulkarni R et al.), 2015.
- Rotator Cuff Tears: Surgical Treatment Options. AAOS OrthoInfo (American Academy of Orthopaedic Surgeons), s.d. (consultado em 2026).
